
Yeltsin: 1931-2007
Sexta-feira, 29 de abril de 2007. Fim da primeira semana de provas na Faculdade Cásper Líbero, em que certo então primeiroanista de Jornalismo tinha passado com um satisfatório grau de sucesso. Basicamente, uma sexta-feira de comemoração por feitos próprios e falso luto pela morte do ex-presidente russo Boris Yeltsin, falecido naquela mesma semana.
Como de costume, veteranos e calouros da Faculdade Cásper Líbero se locomoveram até as proximidades da Av. Brigadeiro Luís Antônio, e pararam à frente de uma livraria e uma loja de roupas, já fechados devido ao tardio horário. Ao lado destes, porém, um estabelecimento funcionava a pleno vapor: o bar “Domínio”, destino cotidiano e quase que religioso daqueles alunos.
Depois de pagarem e consumirem um engradado de cerveja, os universitários, embora em grande número, já começavam a se encontrar em um avançado grau etílico. Foi então que surgiram as duas garrafas de “homenagem” da semana. A primeira, trazida por um então terceiroanista de Presidente Prudente, tinha o rótulo de “Baianinha”, um cheiro extremamente doce e um teor alcoólico muito acima do esperado. Como bom calouro, tal primeiroanista foi obrigado a experimentar em larga escala daquela bebida, diretamente do gargalo, sem intervalos para respirar.
Pouco mais tarde, outro veterano chegaria com o item que homenagearia Boris Yeltsin, primeiro presidente da história da Rússia. Uma garrafa de plástico, com um nome impronunciável e, teoricamente, vodka em seu conteúdo. Claro, em luto ao russo, brindaram e beberam aquele líquido incolor que tinha gosto semelhante ao imaginado sabor de álcool de limpeza.

Bolachinhas, senhor?
Já absolutamente embriagado, ultrapassando a noção do aceitável e vulgarmente tropeçando em sua própria sombra, o calouro, que também havia perdido a carona para casa e a noção do tempo, tinha uma nova missão: chegar a um lugar seguro o suficiente para repousar, ou mesmo em sua própria casa. No quase vazio ponto de ônibus em frente ao bar, o calouro – com a visão embaçada pelo álcool consumido freneticamente e pelo cansaço – se deparou com uma alma caridosa. Ela vestia um tailleur de cor escura, com uma camisa clara, um lenço colorido no pescoço e um chapéu, caracterizando-se assim como uma aeromoça. Ao perguntar se havia algum ônibus para a Avenida Francisco Morato e se deparar com uma resposta positiva, tal calouro quase pulou de alegria, desistindo justamente por conta de seu equilíbrio falho.
A mesma alma caridosa, em um ato de extrema bondade, sentou ao lado do calouro no ônibus e lhe forneceu bolachas de água e sal, tentando assim fazer com que este retome a sobriedade. Embora satisfeito com este ato de solidariedade, tal estudante retribui o gesto da pior forma possível: Vomita em cima da aeromoça.
Sim, no colo da pessoa que tentava o ajudar. Enojado com o próprio ato, e um pouco melhor e mais consciente de seus atos por ter passado mal e expurgado um pouco do álcool em seu organismo, “Alemão”, como tal primeiroanista era conhecido, levanta-se, passa pela catraca e fica esperando “em pé” – amparado pelas mãos que firmemente agarravam uma estrutura de apoio do veículo, até o ponto em que descia.
A missão seguia com um alto grau de dificuldade. Locomover-se mais quatro quarteirões, acertar a chave na porta, tomar um banho e finalmente dormir. Enquanto andava, Alemão percebeu como sua tarefa era complicada: em seus primeiros vinte passos, tropeçou uma vez e pisou na extensão de seu fone de ouvido – nunca mais visto. Dois tropeços, uma pausa para respirar e quatro quarteirões depois, finalmente o calouro havia chegado à seu quartel general. Limpo e reconfortado, o estudante, ainda embriagado, caiu no sono em sua tão buscada cama.

Retrato fiel de sábado
Após um sono irregular, o calouro acordou com os barulhos em seu quarto anunciando o horário, quatro horas da tarde. Sem se recordar imediatamente de todo o seu dia anterior, levantou-se com uma certeza: Boris Yeltsin não ficou nem um pouco contente com a homenagem. Talvez pela mistura de bebidas, talvez pela baixíssima qualidade da vodka, o fato era que Yelstin comandava uma nova e violenta revolução. Dentro dos órgãos do jovem. A sensação que o estudante tinha era a de que seu estômago havia se rebelado contra o próprio organismo, piqueteava e queimava em fúria.
O fígado, a cabeça e os olhos pareciam ter sido perdidos na batalha, e a sedenta garganta era flagelada com bombas incendiárias. Embora contra-atacasse com antiácidos, “anti-ressaca” e cuidados maternos, ele seguiu a sofrer por dois dias consecutivos e finalmente assinar uma trégua com seu organismo, Alemão chegava a dois consensos: nunca mais iria beber, promessa esta facilmente derrubada, e nunca mais celebraria o falecimento de qualquer pessoa. Especialmente os russos.
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Postagem inicialmente pensada para publicação no final de Abril, quando o fato verídico completa três anos. No entanto, uma redação valendo nota com o tema de “experiência significativa negativa” que aconteceu contigo. O post original, contado em primeira pessoa, misturado com um monte de outras coisas, está aqui e aqui, no antigo Einz, Zwei, Drei, BIER.


